Taxa das blusinhas: varejo de moda perde força em 2026

Taxa das blusinhas coincide com avanço de 47,4% nas remessas e queda de 4,4% no varejo de moda em Minas; veja os dados do estudo.

Ago 30, 2026 - 12:30
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Taxa das blusinhas: varejo de moda perde força em 2026

varejo de moda perdeu força em Minas Gerais em 2026 enquanto as remessas internacionais de pequeno valor avançaram 47,4%, segundo estudo do Núcleo de Estudos Econômicos e de Inteligência & Pesquisa da Fecomércio MG. O levantamento relaciona a evolução das compras internacionais com o desempenho dos segmentos de tecidos, vestuário e calçados e aponta uma nova pressão competitiva sobre empresas brasileiras.

O estudo “O impacto da taxação de pequenos valores no varejo de moda” foi elaborado a partir de dados da Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), divulgada pelo IBGE, do Programa Remessa Conforme, da Receita Federal, além de informações sobre comércio exterior e sobre a cadeia da moda.

A análise não estabelece uma relação direta e exclusiva de causa e efeito entre as mudanças tributárias e o comportamento das vendas. No entanto, os indicadores são considerados compatíveis com a hipótese de que alterações nas condições de importação modificaram a vantagem de preço dos produtos estrangeiros e, consequentemente, o ambiente de concorrência enfrentado pelo comércio nacional.

A discussão ganhou ainda mais relevância em 2026. Em agosto de 2024, entrou em vigor a cobrança de 20% de Imposto de Importação sobre compras internacionais de até US$ 50 no âmbito do Remessa Conforme. Em 2026, novas mudanças reduziram a tributação federal sobre essas remessas. A própria Fecomércio MG manifestou preocupação com os efeitos da mudança sobre a competitividade das empresas brasileiras.

Remessas internacionais cresceram 47,4% em 2026

Entre janeiro e julho de 2026, os produtos enviados ao Brasil pelo Programa Remessa Conforme movimentaram R$ 12,16 bilhões, contra R$ 8,25 bilhões no mesmo período de 2025.

O aumento representa aproximadamente 47,4% em apenas um ano.

A média mensal também avançou de forma expressiva:

  • Janeiro a julho de 2025: R$ 1,18 bilhão por mês;
  • Janeiro a julho de 2026: R$ 1,74 bilhão por mês;
  • Crescimento acumulado no período: 47,4%;
  • Maio de 2026: alta de 42,9% na comparação anual;
  • Junho de 2026: alta de 100%;
  • Julho de 2026: alta de 71,3%.

Segundo o estudo, a retomada das importações já apresentava sinais em março e abril, mas ganhou intensidade nos meses seguintes.

Para a economista da Fecomércio MG, Fernanda Gonçalves, o crescimento das remessas precisa ser analisado dentro de um contexto maior de competição entre empresas brasileiras e plataformas estrangeiras.

“Quando vemos um crescimento de 47,4% no valor das remessas internacionais em apenas um ano, estamos diante de um movimento relevante. Não se trata de questionar a liberdade de escolha do consumidor, mas de compreender como mudanças nas condições de importação se refletem na capacidade de competição de milhares de empresas que atuam no Brasil”, destaca Fernanda.

O que aconteceu com as compras internacionais após a taxação?

Antes da cobrança iniciada em agosto de 2024, as remessas internacionais apresentavam trajetória de crescimento.

O valor movimentado pelo Programa Remessa Conforme passou de R$ 1,99 bilhão entre dezembro de 2023 e janeiro de 2024 para R$ 3,13 bilhões entre junho e julho de 2024, último bimestre antes da entrada em vigor da cobrança de 20%.

Após a mudança, o valor caiu para R$ 1,85 bilhão entre agosto e setembro de 2024.

A redução foi de 40,9% em relação ao bimestre imediatamente anterior.

Ao longo de 2025, os valores permaneceram em um patamar relativamente mais estável e abaixo daquele observado antes da mudança tributária.

No mesmo período, segundo o estudo, o segmento de tecidos, vestuário e calçados apresentou recuperação. A Fecomércio MG ressalta, porém, que outros fatores econômicos também interferem no desempenho do varejo e que os dados não permitem atribuir essa recuperação exclusivamente à taxação.

Varejo de moda chegou a crescer em Minas, mas cenário mudou

O comportamento do comércio de tecidos, vestuário e calçados em Minas Gerais apresentou forte oscilação entre 2024 e 2026.

Em janeiro de 2024, o volume de vendas acumulado em 12 meses do segmento registrava queda de 12,7% no estado. Naquele momento, o comércio varejista mineiro como um todo apresentava crescimento de 2,9%.

A situação começou a melhorar ao longo do ano.

A retração caiu para 3,5% em agosto. Em novembro, o segmento já registrava crescimento de 1% e, em dezembro, encerrou o ano com alta de 4,2%, acima dos 3,3% registrados pelo varejo mineiro em geral.

A recuperação continuou em 2025. Em maio e junho, tecidos, vestuário e calçados registraram crescimento de 6,6% em Minas Gerais, enquanto os resultados nacionais foram de 5% e 5,5%, respectivamente.

Em 2026, entretanto, o cenário mudou novamente.

Depois de começar o ano praticamente estável, com crescimento de apenas 0,1% em janeiro, o segmento passou a registrar sucessivas quedas.

Em junho, a retração acumulada em 12 meses chegou a 4,4% em Minas Gerais, enquanto o recuo nacional foi de 1,2%.

O estudo observa que o enfraquecimento já havia começado antes das mudanças tributárias de 2026. Ainda assim, o aprofundamento das perdas ocorreu ao mesmo tempo em que as remessas internacionais voltaram a acelerar.

Por que Minas Gerais é especialmente afetado?

A cadeia da moda possui peso expressivo na economia mineira. Segundo o levantamento, o setor representa aproximadamente 5,2% dos estabelecimentos do estado, contra 4,4% na média brasileira.

Considerando especificamente o comércio, a participação chega a cerca de 15% dos estabelecimentos comerciais de Minas Gerais, enquanto a média nacional é de aproximadamente 13,6%.

O estado também possui 18 Arranjos Produtivos Locais (APLs) ligados à moda, distribuídos por 87 municípios.

Essa estrutura reúne aproximadamente:

  • 67 mil empresas formais;
  • 80 mil empregos diretos;
  • Cerca de 23 mil empregos no vestuário da Região Metropolitana de Belo Horizonte;
  • Aproximadamente 17 mil empregos no setor calçadista de Nova Serrana;
  • Cerca de 12 mil empregos no polo de vestuário de Divinópolis.

Também se destacam os polos de São João Nepomuceno, Jacutinga, Muriaé e Juiz de Fora.

Por isso, a retração do segmento pode ultrapassar os limites das lojas e atingir diferentes elos da cadeia, incluindo fabricantes, fornecedores, distribuidores e prestadores de serviços.

“Em Minas Gerais, falar de moda significa falar de milhares de pequenos negócios e de dezenas de milhares de postos de trabalho espalhados por diferentes regiões. O desempenho de uma loja está conectado à confecção, à indústria têxtil, ao calçado, aos fornecedores e a uma extensa rede de serviços”, afirma Fernanda Gonçalves.

De onde vêm os produtos importados?

O levantamento também aponta uma forte concentração das importações relacionadas à moda.

Em julho de 2026, a China respondeu por 51,2% do valor total importado nos grupos analisados e por 57,8% das quantidades.

A participação chinesa foi ainda maior em algumas categorias:

  • Tecidos: 70,3% do valor e 79,7% da quantidade;
  • Vestuário: 43,9% do valor e 98,4% da quantidade;
  • Acessórios: 53,7% do valor importado.

Nos calçados, Vietnã e Indonésia aparecem entre os principais fornecedores internacionais.

Os números mostram que a indústria e o varejo brasileiros enfrentam uma concorrência internacional fortemente concentrada em fornecedores asiáticos, especialmente em produtos que competem diretamente por preço.

Taxa das blusinhas pode afetar empregos e empresas?

O estudo da Fecomércio MG chama atenção para um ponto que ultrapassa o preço pago pelo consumidor: os efeitos das condições de importação sobre empresas, trabalhadores, fornecedores e investimentos.

A entidade argumenta que a competição entre produtos nacionais e estrangeiros precisa considerar as diferentes condições tributárias, trabalhistas e regulatórias às quais cada modelo está submetido.

A Fecomércio MG também cita dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), segundo os quais a redução das assimetrias tributárias entre produtos nacionais e importados esteve associada ao aumento das vendas em cinco dos dez segmentos avaliados.

O impacto médio estimado foi de R$ 3 bilhões mensais no varejo, segundo os dados reproduzidos no estudo.

A CNC também apontou potencial de criação de 98,9 mil empregos formais entre agosto de 2024 e dezembro de 2025, incluindo aproximadamente 2,8 mil postos mensais em tecidos, vestuário e calçados.

Isso não significa, contudo, que toda perda ou geração de emprego no período possa ser atribuída exclusivamente à tributação das compras internacionais.

Estudo aponta relação, mas não prova causa e efeito

A própria Fecomércio MG faz uma ressalva importante sobre a interpretação dos números.

O desempenho do varejo depende de uma série de fatores, entre eles renda das famílias, endividamento, crédito, inflação, câmbio, sazonalidade, estratégias comerciais e mudanças no comportamento dos consumidores.

Por isso, o estudo não afirma que a mudança tributária seja a única responsável pela retração do segmento de moda em 2026.

O que os dados mostram é uma convergência de movimentos: após a redução observada nas remessas depois da taxação de 2024, o varejo de moda apresentou recuperação em 2024 e 2025. Em 2026, enquanto as remessas voltaram a crescer de maneira acelerada, o segmento de tecidos, vestuário e calçados voltou a registrar queda.

“Os números mostram dois movimentos que merecem ser analisados em conjunto: de um lado, a forte retomada das remessas internacionais; de outro, a perda de força de um segmento altamente exposto à concorrência por preço. O estudo não estabelece uma relação automática de causa e efeito, mas apresenta evidências que ajudam a compreender a dinâmica competitiva enfrentada pelo comércio brasileiro”, avalia Fernanda.

A conclusão da análise é que as mudanças nas condições tributárias podem alterar a vantagem relativa entre produtos importados e nacionais. Para a Fecomércio MG, o debate sobre a chamada “taxa das blusinhas” precisa, portanto, considerar não apenas o preço final ao consumidor, mas também os efeitos sobre a competitividade das empresas brasileiras, os investimentos, a produção e os empregos associados à cadeia da moda.

Sobre a Fecomércio MG

A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Minas Gerais (Fecomércio MG) representa o setor do comércio de bens, serviços e turismo no estado e atua na defesa dos interesses empresariais e no acompanhamento do ambiente econômico.

A entidade reúne mais de 750 mil empresas e 54 sindicatos e também administra o Sesc e o Senac em Minas Gerais.

A Fecomércio MG mantém atuação junto à Confederação Nacional do Comércio (CNC) e desenvolve estudos sobre diferentes setores da economia mineira. Em levantamento recente, por exemplo, a entidade também identificou movimentos distintos entre os segmentos que compõem o comércio estadual.

Fonte: Wagner Fernando Liberato - Comunicacão FECOMERCIO MG

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