HOMENAGEM AO HEROI ANÔNIMO NO CENTENÁRIO DE NOVA RESENDE

DOR OCULTA E a gente fala da gotinha que erra, De folha em folha, e trêmula cintila. Mas nem se lembra da que o solo encerra, Da que ficou no coração da argila.​ Guilherme de Almeida





HOMENAGEM AO HEROI ANÔNIMO NO CENTENÁRIO DE NOVA RESENDE
DOR OCULTA
E a gente fala da gotinha que erra,
De folha em folha, e trêmula cintila.
Mas nem se lembra da que o solo encerra,
Da que ficou no coração da argila.​
Guilherme de Almeida
​Curvo-me e reverencio a todos os grandes nomes e autoridades que fizeram e fazem parte de nossa história, reconhecendo seu brilho e esforço para fazerem de nosso pedaço de chão a amada, digna e agradável, nossa pequena pátria. Os holofotes documentam suas glórias e grandiosidades através de registros, que jamais se apagarão da memória.
​Hoje, porém, quero homenagear nossos heróis anônimos.
​Dentro de nossas fronteiras, foram eles os alicerces da grandiosidade de nosso município hoje. Quem plantou o primeiro pé de café? A você, sonhador, obrigado por acreditar e ser perseverante, nem imaginando que um dia poderíamos ser produtores de um dos melhores cafés do planeta, e que nossos frutos chegassem para alegrar o paladar nas manhãs em mais de uma centena de países no mundo.
​Os negros sedentos por liberdade dos quilombos do Catalão, Caeté e Ibituruna, dizimados no século XVIII, aqui derramaram seu sangue. Não foram derrotados, sua luta não foi em vão. O sonho é imortal. Grande parte de nossa população tem o sangue de vocês em nossas veias, e conseguimos demarcar nossas fronteiras e ter um chão que podemos chamar de nosso.
​As águas do Rio Claro não são salgadas como as do mar; no entanto, os escravos com suas bateias ali as temperaram, derramando enxurradas de suor para extrair muito ouro, inaugurando nossa atividade econômica.
​Tropeiros exaustos, empoeirados e decididos subiam nossas montanhas para aqui servirem nossos primeiros moradores com a base do sustento e arrumação.
​Vaaaamoooo.... Ôaaaaa.... carreiros sonoros, fazendo sinfonia com o canto nos cocões, quantas vezes com fome, doenças, frio, calor e saudade, riscando nossos caminhos rústicos; em cima da cheda, envoltos na esteira, levando nosso café, porco, algodão, arroz, milho, feijão e rapadura, na estação de trem da Jureia, e trazendo a ferramenta, o sal, o tecido, o arame farpado.
​Em casa dez filhos, a esposa grávida e o trabalho de sol a sol do pai na roça para ganhar uma folha de rapadura ou um litro de gordura por uma jornada de serviço para sustentar a família. A sobrevivência era um milagre. Como diz o ditado, “Deus dá o frio, conforme a coberta”.
​Parteiras sem dia nem hora marcada, passando por necessidades, com frio, chuva, sol escaldante, idade avançada, trazendo à vida milhares de bebês que só sobreviveram pela sua caridade, seu amor ao próximo, sua solidariedade, gratuitamente... como esquecer essas heroínas?
​O machado cruel e sagrado derrubou o mato. Nossas árvores mártires ofereceram-nos um solo fértil para recobrir nossas montanhas com a densa floresta de café que nos sustenta e põe o pão em nossa mesa.
​Ah, professoras... caminhando quilômetros, sôfregas, desvalorizadas, ensinando com amor e muitas vezes também fazendo a merenda das crianças. Toda dificuldade virava pó quando viam os olhinhos brilhantes dos alunos, humildes, descalços, com material em um embornal feito da roupa velha.
​A sabedoria das benzedeiras, curando com a fé a doença de quem não tinha acesso ao médico. Que a arruda e o assa-peixe do benzimento as protejam pela eternidade.
​O peão amansador não se vestia de cowboy. Era o homem simples, movido pela coragem, que fazia do animal bravio o companheiro da carroça, charrete, arado, veículo para a festa e para o galope pra buscar o “farmacete”, a fim de salvar mais uma vida.
​Padres e pastores. Amados e incompreendidos, muitas vezes colhendo os louros de seus sermões, outras pregando no deserto. No coração e na alma, pulsando o Jesus vivo, sem a noção de que muitas gerações seriam solução para o mundo a partir de suas incansáveis insistências em mostrar o verdadeiro caminho da verdade, esperança e amor.
​Perdão aos que não mencionei. Apenas sou mais um pecador limitado que ama Nova Resende ao extremo e, além das pessoas, reverencio nossa terra, nossas plantas, nossas águas e nossos animais.
​Venha, herói anônimo. Eu o ressuscito, com o poder de escrever, e perdão ao Criador.
​Faça fila. A cada um uma medalha com cordão de cipó São João, com pedra da Ibituruna, gravada seu nome com seu próprio sangue que fez de nossa terra um pedacinho ajeitado do céu, como a taipa do fogão de lenha ou a quentação do fogo na fornalha do engenho ou na fogueira de São João.
​Venha, erga a cabeça, você é nosso orgulho. Seu pé descalço e o farrapo que veste são seus troféus que nos fazem pequenos e, humildemente, pedimos desculpas por não reconhecermos tantas vezes seu real valor, lembrando que nada seríamos sem o que trabalhou e sofreu por nós.
​Chore de emoção, herói anônimo. Você será sempre uma estrela que ilumina nossas vidas e nosso futuro abençoado e promissor.
Mauro Roberto Martins