Preocupados com a contaminação de cursos d’água em regiões onde o acesso às estações de tratamento é limitado, pesquisadores da Universidade Federal de Lavras (UFLA) desenvolveram um fotocatalisador flutuante capaz de despoluir águas contaminadas por efluentes. A inovação alia sustentabilidade, baixo custo e reaproveitamento de resíduos industriais, contribuindo tanto para a melhoria da qualidade da água quanto para a redução de passivos ambientais.
O composto foi produzido a partir de resíduo siderúrgico, especificamente o pó de aciaria elétrica rico em óxido de zinco, combinado com bio-óleo de eucalipto e perlita expandida — um material de origem vulcânica amplamente utilizado na construção civil, horticultura, floricultura e aplicações biotecnológicas. O resultado é um fotocatalisador flutuante denominado PAE/C/PE, que permanece na superfície da água durante o processo de fotocatálise, facilitando sua exposição à luz e otimizando a degradação de contaminantes orgânicos.
Durante os testes em laboratório, o material foi aplicado na degradação do corante têxtil preto remazol, tanto em água destilada quanto em água de rio. O processo pode ocorrer com o uso de luz ultravioleta artificial, por meio de lâmpadas específicas, ou com a própria luz solar. A característica flutuante do material acelera a despoluição, já que aumenta o contato simultâneo com a radiação, o oxigênio e a água — fatores fundamentais para a eficiência fotocatalítica.
Os resultados demonstraram elevada eficiência na degradação de poluentes orgânicos, além da possibilidade de recuperação e reutilização do fotocatalisador, reduzindo significativamente os custos operacionais do processo. Essa característica torna a tecnologia especialmente promissora para aplicações em locais remotos, áreas rurais e regiões com infraestrutura limitada de saneamento.
Segundo o coordenador do estudo, professor Fabiano Magalhães, do Departamento de Química do Instituto de Ciências Naturais da UFLA, a pesquisa demonstra que resíduos industriais podem ser transformados em soluções ambientais acessíveis e eficientes. Ele destaca que a tecnologia combina simplicidade técnica, inovação de baixo custo e alinhamento com princípios da economia circular, além de contribuir para objetivos globais relacionados à saúde, saneamento, inovação e cidades sustentáveis.
O pesquisador ressalta, contudo, que variáveis como pH, temperatura, condutividade, presença de íons e concentração de matéria orgânica podem influenciar o desempenho do processo, exigindo ajustes conforme o tipo de efluente tratado. Mesmo assim, os resultados laboratoriais são considerados altamente promissores e indicam potencial para aplicações futuras em escala maior.
O projeto atual teve início em janeiro de 2024 e dá continuidade a pesquisas anteriores da equipe, que já haviam demonstrado a viabilidade do uso de resíduos siderúrgicos em reações fotocatalíticas. Parte dos resultados foi apresentada em evento científico nacional em 2025, reforçando a relevância da pesquisa no cenário da ciência ambiental brasileira.
Fonte: Rodrigo Lucas da Silva Penha, bolsista Pibec. Revisão editorial: Ana Eliza Alvim, jornalista.