Com o livro Sexta-Feira é o Novo Sábado, o economista português Pedro Gomes, professor da Universidade de Londres, tem ampliado o debate sobre a semana de trabalho de quatro dias. A partir da análise de 41 empresas em Portugal, que adotaram voluntariamente a escala 4x3, o estudo mostra que a redução da jornada pode ser viável e trazer ganhos econômicos e sociais consistentes.
Segundo o pesquisador, a diminuição das horas trabalhadas não apenas melhora a qualidade de vida dos trabalhadores, como também pode impulsionar a economia. No caso brasileiro, Gomes avalia que há condições para reduzir a jornada para 40 horas semanais e avançar no debate sobre o fim da escala 6x1, tema cada vez mais discutido no mercado de trabalho.
Os dados analisados indicam efeitos positivos diretos nas empresas. A redução da jornada contribui para diminuir faltas, reduzir a rotatividade e aumentar o engajamento dos funcionários. Além disso, o aumento da produtividade por hora trabalhada aparece como fator central para compensar possíveis custos operacionais.
Entre as empresas estudadas, mais da metade decidiu manter a jornada reduzida, enquanto uma parcela optou por modelos intermediários. Apenas uma minoria retornou ao formato tradicional. A maioria relatou estabilidade ou crescimento de receitas, além de melhorias nos processos internos, com destaque para a redução do tempo gasto em reuniões e maior eficiência organizacional.
A reorganização do trabalho é apontada como essencial para o sucesso do modelo. Empresas que adaptaram escalas, distribuíram melhor as equipes e otimizaram tarefas conseguiram manter ou até ampliar resultados, mesmo com menos dias trabalhados.
Outro ponto relevante é o impacto no consumo e na economia como um todo. Com mais tempo livre, trabalhadores tendem a consumir mais serviços ligados ao lazer, turismo, cultura e entretenimento. Esse efeito já foi observado historicamente. O industrial Henry Ford, por exemplo, reduziu a jornada para 40 horas semanais em 1926, consolidando o fim de semana de dois dias e estimulando setores como cinema, esportes e turismo.
Experiências internacionais reforçam essa tendência. Nos Estados Unidos, a redução da jornada contribuiu para o crescimento de indústrias culturais. Na China, a adoção do fim de semana de dois dias em 1995 impulsionou o turismo interno, que se tornou um dos maiores do mundo. Em Portugal, a jornada foi reduzida de 44 para 40 horas em 1996, acompanhando transformações no mercado de trabalho europeu.
Além dos ganhos econômicos, há impactos sociais importantes. A redução da jornada melhora o equilíbrio entre vida profissional e pessoal, favorece o convívio familiar e pode beneficiar especialmente mulheres, que ainda acumulam múltiplas responsabilidades.
Outro aspecto destacado é a diminuição do absentismo e da rotatividade. Empresas enfrentam custos elevados com substituições e afastamentos. Com jornadas mais equilibradas, trabalhadores tendem a faltar menos e permanecer mais tempo nos empregos, aumentando a estabilidade das equipes.
O modelo também pode ser adaptado a diferentes setores. No comércio, por exemplo, algumas empresas mantiveram o funcionamento em todos os dias, ajustando conforme a demanda. Isso permite preservar o atendimento ao público sem comprometer a jornada reduzida.
Do ponto de vista macroeconômico, análises históricas indicam que reduções na jornada não necessariamente prejudicam o crescimento. Estudos de diversos países mostram que, após mudanças na legislação trabalhista, houve aumento médio do crescimento do PIB, impulsionado principalmente pela maior produtividade e pelos efeitos indiretos no consumo.
No Brasil, fatores como longos deslocamentos urbanos reforçam o argumento a favor da redução da jornada. Menos horas de trabalho podem significar mais qualidade de vida, melhor saúde mental e maior eficiência no desempenho profissional.
A discussão sobre a semana de quatro dias ganha espaço globalmente e aponta para uma transformação gradual na forma de trabalhar. Mais do que uma tendência, trata-se de uma mudança estrutural que pode redefinir a relação entre produtividade, bem-estar e desenvolvimento econômico.
Fonte: Agência BRASIL